Brasília 12/01/2010 (MJ) – Brasileiros que sofreram perseguição política em função da militância de seus pais ou avós durante o regime militar (1964-1985) terão seus processos julgados nesta quarta-feira (13) na Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.
São filhos e netos de pessoas que tiveram papel destacado no combate ao regime e que entraram na clandestinidade ou foram fichados, presos, torturados, banidos ou exilados do país juntos com os pais e avós. Há casos de pessoas que nasceram nas prisões e também relatos de tortura de crianças que resultaram em seqüelas permanentes.
Serão apreciados 16 processos. Entre eles, os de José Vicente Goulart Brizola, Neusa Maria Goulart Brizola e João Octavio Goulart Brizola, filhos do ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, Leonel Brizola. Dois deles estarão presentes à sessão da Comissão de Anistia, marcada para as 14h, na Sala de Retratos, do Ministério da Justiça, em Brasília.
José Vicente, Neusa e João Octávio tiveram que sair do país em 1964, quando seu pai teve os direitos políticos cassados pelos militares logo após o golpe de 1º de abril. Eles acompanharam Brizola no exílio no Uruguai, Estados Unidos e Portugal. A família voltou ao Brasil com a Lei da Anistia de 1979.
Também devem comparecer à sessão João Vicente Fontella Goulart e Denise Fernandes Goulart, filhos do ex-presidente João Goulart, deposto pelo golpe militar de 1964. Os dois foram exilados com o pai na Argentina e no Uruguai e impedidos de voltarem ao país.
Eduarda Crispim Leite é mais uma filha de militante que estará no julgamento. Ela não conheceu seu pai, Eduardo Leite, o Bacuri, assassinado em 1970, quando sua mãe, a também militante Denise Peres estava grávida e foi presa.
A militante foi torturada quando estava com cinco meses de gestação de Eduarda. Eduarda foi ainda bebê para o exílio no Chile com a mãe e depois para a Itália, onde vive até hoje. Esta é a primeira vez que virá ao Brasil.
Registrada sem o nome do pai, ela teve o direito de colocar o nome de Eduardo em seus documentos há apenas um mês, após decisão da Comissão de Anistia, que declarou sua mãe, Denise, anistiada política.
Também será julgado o processo de Luiz Carlos Ribeiro Prestes, filho do ex-secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro Luiz Carlos Prestes. Conhecido como Luiz Carlos Prestes Filho, ele nasceu em 1959, no Rio de Janeiro, quando seus pais estavam como clandestinos. Com o golpe militar, ele teve que partir para o exílio aos 10 anos de idade. Foi para a União Soviética, onde estudou Cinema. Ele não possui seus diplomas reconhecidos até hoje no Brasil. Prestes Filho estará presente à sessão em companhia de sua mãe, Maria do Carmo Ribeiro, 80 anos.
Ainda serão apreciados os processos:
- Magnólia de Fiqueiredo e Claudia Cavalcanti, filha e neta, respectivamente, de Paulo Cavalcanti, acusado de ser "esquerdista, comunista e comunizante". Preso várias vezes, atuava como advogado para inúmeros presos políticos, como Gregório Bezerra, Miguel Arraes e Pelópidas Silveira. Cláudia, com apenas seis meses de vida, e Magnólia foram detidas com o pai e avô.
- Nascida no exilo, Ñasaindy Barret de Araújo é filha dos militantes Soledad Barret e José Maria, mortos pela ditadura. Ñasaindy conseguiu voltar ao Brasil somente em 1996.
- Samuel Ferreira foi preso aos oito anos e depois internado na Casa de Plantão do Juizado de Menores de São Paulo, onde foi torturado.
- Zuleide Aparecida, neta de Tercina Dias de Oliveira, foi presa aos 4 anos em São Paulo e levada para a OBAN. Foi trocada pelo embaixador alemão, Ehrenfried Anton Theodor Ludwig Von Holleben, seqüestrado em 1971. Viveu exilada em Cuba até 1986.
- Carlos Alexandre Azevedo, filho do jornalista Dermi Azevedo, foi levado ao DOPS de São Paulo aos dois anos juntamente com a babá. Torturado junto com sua mãe e seu pai.
- Os irmãos Adilson, Ângela e Denise Lucena foram presos menores de idade e banidos do país juntos com sua mãe, Damaris Oliveira Lucena, militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). O pai foi morto na frente das crianças. Damaris Lucena, além de cuidar de seus filhos, assumiu os cuidados de Ñasaindy Barret, depois que Soledad foi morta.